CONTAMINAÇÕES

Como na natureza, nada se perde e nada se cria, tudo se transforma.

O teatro, o audiovisual e a sua tradução e legendagem (4)

Posted by casoual on October 23, 2009

Temos, portanto, alguns pontos-chave a considerar: ritmo, gramática específica, encenação, condições de produção textual, características próprias da obra do realizador, do encenador, do argumentista, etc., às quais há a acrescer as condicionantes técnicas da legendagem, entre outras:

- a legenda está limitada a um determinado número de caracteres, divididos, normalmente, por duas linhas, as que surgem no ecrã;

- o tempo necessário para a leitura da legenda, de 5 a 6 segundos.

Na legendagem, há, pois, que simplificar as estruturas da frase, não sobrecarregando a legibilidade do todo, adoptando um ritmo das legendas consentâneo com ela, uma economia narrativa em que os tempos mortos permitam que as cenas «ecoem» no espectador: a plasticização do tempo.

Termino citando M. Antonioni, um cineasta que em vários dos seus filmes fez do próprio silêncio o acontecimento: «Eis o limite dos guiões: dar palavras a acontecimentos que as recusam. Escrever um guião é um trabalho verdadeiramente cansativo, justamente porque se trata de descrever imagens com palavras provisórias, que depois já não servem, e já isto não é natural. A descrição não pode ser mais que genérica ou falsa, justamente porque diz respeito a imagens muitas vezes privadas de referências concretas.»

Se o teatro é representação e decomposição de uma matéria na ausência de outra, no audiovisual ele adquire a componente cinematográfica, e essa passa a ser a sua «outra» verdade, uma verdade a ser trabalhada e traduzida pelo tradutor.

Duas referências:

Marshall McLuhan, Autre homme autre chrétien à l’âge électronique, with Pierre Babin (Lyon: Éditions du Chalet, 1977)

Michelangelo Antonioni, Catálogo da retrospectiva do cineasta, org. M. S. Fonseca, Cinemateca Portuguesa, Lisboa

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O teatro, o audiovisual e a sua tradução e legendagem (3)

Posted by casoual on October 1, 2009

O script, o texto dito, tem muitas semelhanças com o texto dramático: omite os aspectos descritivos da imagem, dos planos e movimentos de câmara, das luzes e enquadramentos, e até das bandas de ruídos e de música. Os aspectos emocionais são essencialmente fornecidos pela imagem, pelo ruído e pela música, podendo, portanto, ser economizados no texto (traduzido).

Se estas considerações se aplicam a todo o meio audiovisual em geral, encontramos, todavia, vertentes diferentes em autores que privilegiam ora a imagem ora a palavra, como, por exemplo, Mankiewicz ou Manoel de Oliveira, ou que são persistentemente «antiteatrais», como Bresson ou Tarkovski.

Passemos, agora, ao teatro «para televisão» e à sua tradução e legendagem. O trabalho do tradutor/legendador não poderá deixar de reflectir o que anteriormente ficou dito, tanto em termos do ritmo como de uma estrutura gramatical específica.

Se, em tradução, o conceito de «equivalência dinâmica aproximativa», o entendimento do significado global da obra nos seus vários aspectos linguísticos, literários e histórico-culturais, deverão estar presentes, não é menos verdade que, numa obra audiovisual, outros valores deverão ser tidos em conta na apreensão profunda da matriz: a obra deixou de ser pertença de um autor para passar a ser a coordenação do «génio» de vários autores, entre os quais se encontra ainda, no final do processo, o tradutor/legendador.

(continua)

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O teatro, o audiovisual e a sua tradução e legendagem (2)

Posted by casoual on September 21, 2009

Mas sejamos mais precisos e desçamos ao pormenor: a imagem tem uma capacidade informativa própria. Ela não necessita do recurso ao som. Este aspecto tem sido explorado através da diversidade dos planos, dos movimentos da câmara, da iluminação, das trucagens e montagens, instrumentos poderosos de acção sobre o espectador.
No entanto, a par da imagem, podemos ter, e temos normalmente, diversas bandas sonoras que se conjugam com ela, sendo um erro pensar que o som é uma mera ilustração, um simples acompanhamento; o contrário, no entanto, seria igualmente falso: a banda de ruídos, a banda de música, agem, também elas, sobre o espectador, criando ambiências, suscitando adesão ou repulsa, provocando a sua expectativa…
Temos, por último, uma banda constituída por palavras, mas a este propósito citaremos o que escreveu Albert Mehrabian: «Na televisão, o que uma pessoa diz não representa mais que 7% (sete por cento) do que ela realmente comunica: 38% (trinta e oito por cento) da mensagem é transmitida pela sua maneira de se exprimir (voz, vocabulário, ritmo do discurso) e 55% (cinquenta e cinco por cento) pelas expressões do rosto e pelos movimentos do corpo.»

(continua)

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O teatro, o audiovisual e a sua tradução e legendagem *

Posted by casoual on September 19, 2009

É indesmentível que o audiovisual se instalou definitivamente nas nossas vidas. Actualmente, o trabalho, o lazer, o estudo, passam, e muito, por esta outra forma de abordar a realidade: de uma cultura da escrita saltámos para uma cultura da imagem, da encenação, da emoção, o que o teatro, com a sua «verdade dramática», vem fazendo há já muitos séculos.

Sucede que a cultura da imagem é, frequentemente, uma «cultura televisiva», naquilo que, em termos semânticos, a expressão tem de mais negativo; mas isso pertence ao domínio da política televisiva, às opções dos decisores e produtores dessa(s) imagem(ns).

Ao contrário da cultura da escrita, no audiovisual não se trata de descrever, de traçar uma linha racional, um fio condutor a modelar o discurso. A amostragem da realidade surge perante os nossos olhos como uma imensidade de flashes que entram por nós de forma aleatória: há sequências de imagens, semelhantes umas, diversificadas outras, formando, eventualmente, contrastes vigorosos, chocantes mesmo, que procuram arrancar-nos ao torpor, suscitar a nossa adesão ou a nossa repulsa e, por vezes, tal é a repetição, a nossa indiferença.

É, então, a partir desta imensidade de flashes, de sequências, que somos levados a criar uma imagem do mundo, a nossa imagem, a nossa leitura do mundo, a absorção que cada um de nós faz de todo o material audiovisual.
(continua)

*Comunicação (abreviada) apresentada num Encontro de Teatro/Tradução

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A Procura das Leis da Auto-Organização e da Complexidade

Posted by casoual on September 16, 2009

livro_281.jpeg A Procura das Leis da Auto-Organização e da Complexidade, da autoria de Stuart Kauffman
Tradução de Carlos Sousa de Almeida, de que se falou neste glossário.
Revisão científica de José Félix Costa
, do CCC, objecto de recensão em Disputatio (At Home in the Universe: The Search for the Laws of Self-Organization and Complexity, de Stuart Kauffman).

Um excerto: «A mudança, a complexidade e a desordem são aspectos determinantes da natureza e das sociedades humanas dos nossos dias e no fim deste século. Embora a tradição científica ocidental afirme que as melhores teorias (e leis) são as mais simples (o cérebro humano tende a procurar o que é primitivo e invariante), as nossas intuições acerca do mundo parecem estar erradas sempre que o examinamos mais de perto. Por exemplo, a nossa intuição diz que as regras deterministas do comportamento dão origem a acontecimentos completamente previsíveis, o que nem sempre é verdade. O complexo é subjectivo e depende muito do modo como o encaramos e o compreendemos. Por isso devemos estar continuadamente preparados para o inesperado e o imprevisível. Mas que ciência temos actualmente para enfrentar os nossos presentes e futuros problemas? Como os podemos descobrir, olhar, estudar e analisar de forma a resolvê-los? E, com que instrumentos científicos e tecnológicos podemos contar para entender os comportamentos estranhos? Quais são as leis fundamentais a que odedecem tais sistemas?», Editorial Bizâncio.

Foi escolha de Jorge Dias de Deus no «Mil Folhas»: «Dez anos demorou este livro a vir de Santa Fé, nos Estados Unidos, até nós. Ainda vem a tempo. Querendo ir além do que Darwin disse, o autor trata da emergência e do aparecimento espontâneo da ordem que está subjacente à Vida em todas as suas variantes. É a teoria da complexidade explicada a toda a gente.»

Jorge Dias é autor de «Viagens no Espaço-Tempo» e «Ciência, Curiosidade e Maldição», aqui lido, este, por Desidério Murcho (Gradiva).

Algumas ligações úteis: The Santa Fe Institute; L’Encyclopédie de L’Agora; Complex Systems Glossary; International Society for Complexity, Information and Design; Association pour la Pensée Complexe.

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VÍDEO TÉCNICO E FORMAÇÃO-TRADUÇÃO

Posted by casoual on September 14, 2009

A TRADUÇÃO PARA O VÍDEO  TÉCNICO

(De uma intervenção (aqui abreviada) num Seminário.)

1 – Compreensão Global
2 – Público-alvo
3 – Especificidades
4 – A tradução

À semelhança de qualquer outro tipo de tradução, verter para português um texto técnico, seja ele para vídeo ou não, exige domínio das línguas de partida e de chegada, compreensão da matéria abordada, criatividade, espírito de investigação e aturado esforço. Há, no entanto, diferenças, ou não se tratasse de vídeo, ainda por cima técnico, e quase sempre acompanhado de material de apoio: um manual do participante ou do monitor.

Afinal, o vídeo tem as suas particularidades, e em sendo técnico, maior se torna a especificidade em termos de abordagem. Deixando de lado as características próprias do suporte vídeo generalista, vulgo documentários, ficção e recreativos para televisão ou «home video», (…) abordemos as especificidades do vídeo técnico.

Agrupo este tipo de tradução na categoria da economia e da gestão. É uma produção de textos que deve bastante a um trabalho linguístico e que recorre a fontes muito diversas: obras de referência, glossários e dicionários, revistas especializadas, mas que, por vezes, por não estar definida ou estabelecida a sua terminologia, torna-se necessário o recurso aos interventores no próprio processo.

O vídeo técnico (por exemplo, aqui) tem uma audiência sempre muito definida:
a) destina-se, regra geral, a instruir, a formar e informar pessoas.
b) possui uma duração habitualmente curta, sendo, portanto, a linguagem mais condensada.
c) tem pontos-chave, pontos de aprendizagem, explora procedimentos, técnicas, define princípios.
d) impera a terminologia, disseminada por um texto dramatizado.
e) estabelece objectivos como a informação, a motivação, o desempenho, o planeamento, o desenvolvimento, resumindo, benefícios específicos a colher da parte de quem vê.

Apesar de tudo isto, o público-alvo de um vídeo técnico pode ser bastante alargado: cursos de formação, seminários de motivação, programas de desenvolvimento de recursos humanos, de empenhamento dos trabalhadores numa dada organização, cursos de introdução a uma temática, programas de análise, cursos de técnicas, sessões de informação, etc.
Que benefícios há então a colher da parte das pessoas? Os benefícios podem ir desde o encorajamento à colaboração das pessoas entre si numa organização, reduzindo assim a possibilidade de conflitos, à tomada de consciência relativamente a um procedimento, a uma técnica, ao desenvolvimento da formação das pessoas, da sua produtividade, da comunicação, a programas de introdução a uma temática, à informação eficiente e objectiva sobre um determinado produto. Podemos ter uma temática que vai desde a gestão à dinâmica de grupo, da resolução de problemas às questões da comunicação, das vendas ao trabalho com computadores.
(…)
Deste modo, poderemos apontar as distinções seguintes:
- Num vídeo comum, digamos assim, há que ser conciso, num vídeo técnico há que ser informativo;
- num vídeo comum, há que ter em atenção o todo, num vídeo técnico o particular;
- num vídeo comum, há que dar ambiências também através da palavra, num vídeo técnico é preciso atender aos pontos-chave;
- num vídeo comum, o público-alvo é toda a gente, num vídeo técnico um segmento muito particular;
- um vídeo comum vê-se em qualquer altura, em qualquer lugar, um vídeo técnico vê-se num momento pré-determinado, num local pré-fixado;
- num vídeo comum prescinde-se geralmente de documentação, num vídeo técnico trabalha-se sobre/com a documentação;
- ver um vídeo comum é inserirmo-nos num contexto sobretudo de lazer, visionar um vídeo técnico é preocuparmo-nos e empenharmo-nos numa determinada matéria e argumentação.
- traduzir um vídeo técnico é trabalhar com uma «língua técnica» cuja universalização é cada vez maior, onde há a necessidade constante de responder à criação de novos termos, conceitos e processos em estreita ligação com as empresas e o mundo científico.
(…)
É por tudo isto, e muito mais que ficou por dizer, que traduzir um vídeo técnico exige competências específicas, não basta saber línguas, há que conhecer as regras da produção textual, o que não temos visto no mercado da tradução em Portugal. (…)

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«A Física da Imortalidade»

Posted by casoual on September 12, 2009

fim.jpegCosmologia Moderna, Deus e a Ressurreição dos Mortos, da autoria de Frank Tipler
Tradução de Carlos Sousa de Almeida
Revisão científica de José Félix Costa

Bibliografia das principais obras de consulta para a tradução de

«Física da Imortalidade»:

1 – Dictionary of Physics, Alan Isaacs Editor, Oxford University Press, 4ª Ed, 2000.

2 – Physics, Marcelo Alonso e Edward J. Finn, Assison Wesley Longman, (trad. port. de Maria Alice Gomes da Costa e Maria de Jesus Vaz de Carvalho, revisão técnica e científica e coord. da tradução de J. Félix da Costa e Nelson Fiedler-Ferrara, “Física”, Pearson Education, S.A., 1999).

3 – Observar o Céu Profundo, Guilherme  de Almeida e Pedro Ré, Plátano Edições Técnicas, Lisboa, 2000.

4 – Artigos vários em português disponíveis na INTERNET da autoria, entre outros, de Paulo Crawford, Amorim da Costa, D. Maia, Francisco Lobo, A. M. Amorim da Costa, CERN, Eduardo Sergio Santini, João Magueijo, bem como de vários sites especializados em inglês e francês.

5 – Colóquio/Ciências, Revista de Cultura Científica, números 2, 3 e 4, Fundação Calouste Gulbenkian.

6 – Glossário Inglês-Português de Filosofia, Desidério Murcho, Central de Filosofia e Cultura.

7 – Diccionario de Filosofia Abreviado, José Ferrater Mora, Editorial Sudamericana, Buenos Aires, 1974 (trad. port. de António José Massano e Manuel J. Palmeirim, “Dicionário de Filosofia”, Pub. D. Quixote, 4ª ed., Lisboa, 1978).

8 - Dicionátio Técnico e Científico Verbo Inglês-Português, Português-Inglês.

9 – Pratique des Mathématiques de A à Z, Georges Alain, Hatier, Paris, 1995 (trad. port. e rev. cient. de Liliana Costa, “Dicionário Prático de Matemática”, Terramar, 2001).

10 – Dicionário de Computadores, Luís de Campos, Editorial Presença, Lisboa, 1992.

11 – Dicionário de Economia e Gestão Inglês-Português, José Manuel Graça Dias, editor responsável, Flep, 1996.

12 – Bíblia Sagrada em CD-ROM, Difusora Bíblica, Herculano Alves (dir.) 3.ª edição, Difusora Bíblica, 2001.

13 – La Bible – Traduction Œcuménique, Editions du Cerf, 1988.

14 – Bíblia de Jerusalém, São Paulo: Ed. Paulinas, 1980.

Recensão de C.E., na Gazeta de Física, vol. 26, fasc. 4:
«Foi recentemente publicado em Portugal, no prelo da Bizâncio, um livro com um título curioso – “A Física da Imortalidade” – e com um subtítulo ainda mais curioso – “Cosmologia Moderna, Deus e a Ressurreição dos Mortos”. Curiosíssimo é o facto de o autor, Frank Tipler, ser um reputado físico-matemático de uma bem conhecida universidade norte-americana, a Tulane University, situada na Saint Charles Avenue, na elegante “uptown” de New Orleans, Louisiana.Tipler trabalha no Gibson Hall, a mansão onde foram rodadas algumas cenas do filme “Dossier Pelicano” (com Julia Roberts), sendo a relatividade geral a sua especialidade. É a primeira vez desde o “cisma” ocorrido com Galileu por causa de Copérnico (uma questão cosmológica…) que a física e a teologia aparecem tão intimamente unidas. Para quem ler o prefácio, não restam dúvidas sobre as intenções do autor: “…A teologia é um ramo da física,… os físicos podem inferir a existência de Deus através do cálculo e a probabilidade da ressurreição dos mortos para a vida eterna exactamente da mesma forma como os físicos calculam as propriedades do electrão…” E logo a seguir, como que respondendo a quem tenha dúvidas, o autor acrescenta: “Estou a falar muito seriamente, mas estou tão surpreso como o leitor. Quando iniciei a minha carreira como investigador, há cerca de 20 anos [o livro original é de 1994], era um ateu convicto. Nunca imaginei nos meus sonhos mais loucos, que um dia viria a escrever um livro com o objectivo de mostrar que as afirmações da teologia judaico-cristã são de facto verdadeiras, que elas são deduções directas das leis da física como as entendemos agora. Fui obrigado a chegar a estas con-clusões pela lógica inexorável do meu ramo de especialidade, a física”. A mensagem é, sem dúvida, surpreendente para quem está habituado a separar as águas entre ciência e religião. Aqui a religião é simplesmente “engolida” pela ciência, como se a ciência fosse tudo e tudo pudesse. Com franqueza, acho o livro bastante interessante, pelo que o recomendo, mas a pretensão do autor parece-me francamente exagerada. Não penso que as quase quinhentas páginas consigam convencer quem não está já convencido da “ressurreição dos mortos”. Acresce que os argumentos nem sempre são fáceis de seguir, recorrendo Tipler, além do texto principal, a um largo “Apêndice para Cientistas”, com mais de cem páginas recheadas de equações. Mas de que ciência trata afinal o livro? Tipler usa a doutrina da relatividade geral, que bem conhece, para analisar um modelo cosmológico, que talvez tenha caído um pouco em desuso nos últimos tempos (observações de supernovas indicam que o universo está em expansão acelerada), no qual o universo se contrai para no final cair num ponto, o “ponto ómega”. Tipler parece motivado pelas teses teleológicas do padre Teilhard de Chardin. É nesse hipotético “ponto ómega” que todo o mundo e toda a humanidade se virá a reunir – a tal “ressurreição dos mortos” que serve de isco ao leitor no subtítulo. Seria o “big bang” (o “ponto alfa”) ao contrário. Contudo, ao contrário do padre Chardin, para Tipler a existência do “ponto ómega” está associada a previsões da física, que se podem verificar experimentalmente. Tipler chega a prever um valor para a massa do bosão de Higgs, a partícula ainda não descoberta que constitui o “Santo Graal” da física das altas energias. No ano de publicação do livro, Tipler, compreendendo como era difícil publicar essa sua previsão num artigo “normal” de uma revista científica, aproveitou uma sua recensão de um outro livro na “Nature” para a enunciar, ainda que sem prova. Escreveu: “Se Deus existe então a massa do quark top tem de ser 185 mais ou menos 20 GeV e se Deus é humano então a massa do bosão de Higgs tem de ser 220 mais ou menos 20 GeV”. Com afirmações destas não admira que o título da recensão – “Deus nas equações” – tenha sido censurado pelos editores da revista… Como mostra este episódio, Tipler possui, para além de uma grande bagagem científico-cultural, um aguçado sentido de humor. Fala muito, sobre qualquer assunto. Conta bastantes histórias. Tem, por vezes, imensa graça. Tem graça, por exemplo, quando dedica o livro aos avós da sua esposa, que é polaca, escrevendo “todos os três, cidadãos de Torun, Polónia, local de nascimento de Copérnico, morreram esperando a ressurreição universal, esperança que, mostrarei neste livro, se cumprirá no final dos tempos.” Algumas histórias de Tipler são famosas no mundo académico da Física. Uma das histórias que circulam, não sei se apócrifa, relata que numa “book review” de “Física da Imortalidade” apareceu uma gralha que transformou “Física da Imortalidade” em “Física da Imoralidade” (em inglês, passou de “Immortality” para “Immorality”, o que é só a queda de uma letra). Mas a piada não acaba aqui. Não é que Tipler, ao ver a gralha, comentou: “Ora aqui está um excelente título para o meu próximo livro”. Talvez estivesse a imaginar um subtítulo com a palavra “sexo”… O volume aqui em questão é o segundo livro do autor. O primeiro foi um erudito trabalho de colaboração com o astrónomo inglês (e divulgador científico) John Barrow, intitulado “The Anthropic Cosmological Principle” (não há tradução em português). O princípio antrópico oferece uma explicação da “máquina do mundo” não pelas suas causas, como é tradição em ciência, mas pelas suas finalidades. De acordo com o princípio antrópico, o mundo é como é porque, se não fosse assim, não estaríamos cá para o observar. O argumento é passível de muitas objecções… Como todos os autores, Tipler gosta de vendas: deve estar agora contente com esta edição em Portugal, tão contente quanto se mostrou quando a rede TV Globo de televisão lhe pediu uma entrevista para o “Fantástico”, um programa de grande audiência no Brasil. A edição chega-nos pelas mãos da editora Bizâncio, aparecendo integrada numa das poucas colecções de ciência que hoje se publicam. “A Física da Imortalidade” é o número 14 da colecção “A Máquina do Mundo”, que a Bizâncio confiou a José Félix Costa, matemático do Instituto Superior Técnico de Lisboa. Outros títulos dessa colecção que merecem leitura são “O Quarteto de Cambridge” de John Casti, “T. Rex e a Cratera da Destruição”, de Walter Alvarez e o recente “Ciência ou Vodu”, de Robert Park. A esta colecção, que está como as outras da Bizâncio sob a supervisão de Luís Alves, deseja-se o maior futuro. Se não chegar até ao “ponto ómega”, que chegue pelo menos o mais próximo possível dele. Isto no caso do “ponto ómega” existir.»

Para outras leituras, ver aqui. em «Scirus, for scientific information».

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Técnicas de tradução para Audiovisuais (e alguns linques)

Posted by casoual on September 10, 2009

Em tempos, seguramente há uma boa dezena e meia de anos, com a experiência acumulada de centenas de horas de trabalho (ainda os computadores se mediam em metros e as disquetes em muitos centímetros), reflecti, li, coligi material, criei e dirigi um curso de Técnicas de Tradução para Audiovisuais. Teve dezenas de alunos, desde curiosos a secretárias, de licenciados em tradução a jornalistas e funcionários de empresas de produção.

A inveja no terrunho corrói. O dinheiro dava para ir pagando o investimento em material, equipamento e instalações.  Foi um prazer, intelectual e não só. Constava de  3 módulos: Introdução, Dobragem e Legendagem. Era preciso ensinar o bê-á-bá. Da gramática dos planos – para que é isso? questionavam os alunos (queriam conhecer apenas as convenções, sim, porque as há, que isto não é à vontade do freguês) – às noções de prosódia e classificação dos sons, dos vários géneros de programas audiovisuais às técnicas de transcrição auditiva, à mistura de bandas de ruídos e noções básicas de matemática para saberem trabalhar com o time-code, confrontando o todo com as práticas noutros países e visitas a estúdios de gravação.

Não havia apoios. Ou se os havia… queiram fazer o favor de ler nas entrelinhas. Depois chegaram os cursos de formação, os certificados de aptidão profissional, as universidades privadas, os institutos, os cursos livres, e o curso de técnicas de tradução para audiovisuais multiplicou-se como cogumelos. Certificadinho, limpinho, bonitinho. E a tradução para legendagem é o que se vê. É como no restante sector. Os professores, na sua maioria, nunca traduziram na vida. Quanto mais tradução para audiovisuais!

Material teórico em português, não o havia, como agora, «em estrangeiro» e ao alcance de um clique. E continua a não haver. Nem vale a pena referir a pobreza dos poucos casos que conheço. Que fe(a)z toda aquela gente? Aqui ficam algumas ligações para quem vir nisso proveito:

1 – La traduction audiovisuelle : un genre en expansion, Yves Gambier, Université de Turku, Turku, Finlande

2 - Subtitling: the long journey to academic acknowledgement, Jorge Díaz Cintas, University of Surrey Roehampton, London

3 – A short technical history of subtitles in Europe, e

4 – Bibliography of Subtitling and Related Subjects, Jan Ivarsson

5 – Topics in audiovisual translation, Pilar Orero (ed.)

6 – Audiovisual Translation at the Dawn of the Digital Age: Prospects and Potentials, Fotios Karamitroglou, University of Athens, Greece

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Para uma memória da história da tradução e legendagem em Portugal

Posted by casoual on September 8, 2009

A legendagem e o cinema no Estado Novo

«A legendagem dos filmes, obrigatória, impediu que muita gente fosse ver filmes estrangeiros. Isso acabou por afectar os filmes portugueses e a frequência de espectadores às salas de cinema.

A Lei 2027 de 1948, ainda com António Ferro à frente do SNI, para além de criar o Fundo do Cinema Nacional, vem proibir as dobragens. Desta forma, estipula-se que “não é permitida a exibição de filmes de fundo estrangeiros dobrados em língua portuguesa nem a importação de filmes de fundo estrangeiros falados em língua portuguesa, excepto os realizados no Brasil [...].»
Excertos insertos em amor.de.perdição.pt

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«Script» e sua tradução para legendagem. Tente fazer a conversão para Português

Posted by casoual on September 7, 2009

Geschichtenerzähler, Der (1989).
Original:
Frau Jensen (a): Wenn Helen sich meldet, soll sie unbedingt anrufen.
Nico (b): Jajaja…
Nico (c): Der Ehemann ist Trinker und Sadist, durch und durch unsympatisch, kein Zuschauer kann ihn leiden. Es ist eine Erleichterung, wenn er ermordet wird. Seine Ehefrau hat natürlich ein Alibi, denn sie ist über 100 Kilometer weit weg…
…Und… den Schatten kann keiner verdächtigen, weil ihn mit der Frau emotional überhaupt nichts verbindet…
Alex (d): Also, wenn das man kein Bulle ist!

Versões (legendadas):
Inglesa
(a) Tell Helen to ring us if you hear from her. /
(b) Sem texto.
(c) The husband is an alcoholic and a sadist.
A mean character… /
no viewer can stand him.
His murder comes as a relief. /
His wife has an alibi…
she is over 60 miles away. /
And no-one can suspect the ‘Shadow’
because he is not connected /
to the wife in any way,
emotionally speaking…
(d) I bet that’s a cop!

Francesa
(a) Dis à Helen qu’elle nous appelle,
si tu en as l’occasion. /
(b) Sem texto.
(c) Le mari est un ivrogne et
un sadiste. /
Um sale caractère.
Les spectateurs le détestent. /
Son assassinat, c’est un
véritable soulagement. /
Sa femme a un alibi en or. Elle
se trouve à plus de 100 km de là. /
Et personne ne soupçonne “l’Ombre”… /
puisqu’il n’a aucune relation
avec la femme. /
(d) Ça m’a tout l’air d’être un flic!

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